
A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
17-10-2004
Cortázar me oferece a sua própria lógica de ver o mundo. Não sei divisar qual o mais perigoso: se o que está visível ou o subterrâneo. Ambos fazem parte de uma grande árvore de cores e formas mondrianescas, onde o negro predomina. Os seus espaços, seus personagens tudo à sua volta passa. Ele, permanece.
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09h02
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
16-10-2004
Lucas continua a me acompanhar pelas ruas de Buenos Aires. Ruas largas e sem fim. Andar pelas ruas dessa cidade cortazariana é mais fácil que andar pelos labirintos traçados pelos textos. Entre a cidade e a cidade, impossível não sentir-lhe os passos no rastro. Entre a cidade e o subte, impossível não pressentir que alguém anda por aí controlando o movimento das pessoas. Tem sempre alguém anotando algo numa caderneta.
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09h58
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
15-10-2004
Lucas me dirige um olhar de compreensão. Transgredir. É essa a palavra exata que se desenha no seu olhar de hidra. Entro nos textos como quem procura uma prova não sei de quê. Jogo-me numa zona desconhecida com uma expectativa de sair dela como se sai de um sonho consumado. Tento encontrar a cabeça original, mas me custa acreditar que elas se multiplicam e me devolvem sempre ao ponto de partida.
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09h57
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
14-10-2004
Retorno aos textos de Cortázar sempre com a impressão de que estou sendo policiada. Não sei se o que digo, digo além ou aquém do que me permite o olhar crítico ou apaixonado. Gostaria de fazer com seus contos o que ele fez com os filmes de Glenda Jackson: reverter-lhes os finais, apagar-lhe as impurezas, para conservar-lhe o ar de cronópio imortal.
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08h59
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
13-10-2004
Era Adorno ou Osíris, o que estava nos meus sonhos? Se me pergunto isso é porque imagino que os gatos são todos misteriosos, independentes de nome, raça ou cor. Todos se enroscam nas minhas pernas e me olham como se soubessem que fazem aquilo por saberem mais de mim que eu mesma. Já observaram como os gatos dilatam a pupila quando nos encaram? Já viram os olhos do gato no escuro? Eles fazem raio X da nossa alma.
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08h59
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
12-10-2004
Adorno vigia o que pensam de seu dono. Ao longe, Manuel me acena como se quisesse me mostrar outras vias de acesso, mas some no esfumado dos meus sonhos, embotando minhas saídas. Caminho desolada... Viamonte-Maipu-Floria-Corrientes-Lavalle-San Martin-Reconquista-25 de Mayo-UBA-Instituto de Literatura Argentina... Quem foi Ricardo Rojas? Contemporâneo de Cortázar?
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19h30
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
11-10-2004
Sonhei com um gato. Era ele. E não veio roubar meus sonhos. Veio para mostrar e esteve a ponto de ser esse tal que tanto busco por entrelinhas quebradiças e pensamentos in-completos. Querer capturá-lo pela escrita, escalavrá-lo, escrevê-lo. Sobretudo inscrevê-lo no sólito da minha vida insólita e descontinuada.
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08h30
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10-10-2004
Saio do Beijo direto para o mundo de Cortázar, onde o abraço estrangula e o beijo é sinônimo de morte. Lá fora é verão e todos desfrutam desse calor natural que aquece o corpo, mas não aquece a alma. Sol lá fora, multidão deitada na grama ou caminhando à passos largos. Plantas nas janelas, flores de ipê roxo atapetando o chão. Sol(edição). Diante de mim mesmo descubro o horror de um povo que, livre, busca recuperar o que lhe foi tirado algum tempo, arrancado de suas entranhas: a família e a palavra.
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20h10
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
09-10-2004
O MNBA estava expondo obras de pintores espanhóis do século XX. Paro diante do Beijo, de Rodin e fico sem palavras. A pedra fala, o corpo fala, a razão, emudecida e distante. O mundo gira à minha volta, caminho por entre pinturas e esculturas de deuses e ninfas, feitas por deuses que nos convidam a atravessar o inimaginado mundo da imagem e do palpável.
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20h10
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
08-10-2004
Hoje não quis saber de conversar com ninguém. Saí a caminhar. Atravessei a avenida Las Heras, sem rumo. Entrei no Museu Nacional de Arte Decorativo. Vi uma exposição belíssima sobre o mate criollo. Mostrava todos os tipos regionais, inclusive a região do Brasil onde se consome o mate. Uma sala reproduzia uma típica residência gaúcha, com o cavalo selado, amarrado em uma árvore e as pessoas tomando mate. Peças de ouro, prata e porcelana as mais belas. O Museu, se tivesse vazio, já seria uma obra de arte. Saí de lá como se sai de um sonho bom. Então é esse o mundo que não viu Cortázar.
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16h12
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
07-10-2004
Hoje tenho convidados. Formam comigo uma mesa octaédrica Saúl, Jaime, Omar, Graciela. Todos falaram contigo, estiveram contigo em algum tempo. E me mostram teus mundos e modos, tuas palavras fascinantes. Tentam aproximar-me de ti que, de tão longe que estás, retrocedestes à forma primitiva de cronópio. Entabulo com eles uma conversa sobre tango e suas preferências. A propósito, tenho que ir à estação Carlos Gardel.
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06h47
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
06-10-2004
Córdoba, Corrientes, Suipacha, Viamonte, Florida, Esmeralda, 25 de Mayo, Reconquista. As ruas dançam, serpenteiam à minha frente em desordem. Eu, em desordem. O subte a me chamar. Quem sabe, estás a ler Trilce em alguma estação, disfarçado de gato, ou observando alguma verdade que ainda não se concretizou? Estou, acidentalmente, em um país determinado, numa cidade determinada, numa rua determinada. Determinada a te encarar de frente como se encaram os grandes sonhos ou os mais temíveis pesadelos.
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19h05
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
05-10-2004
Manuel me dá as chaves que procuro. Chego tímida ao teu mundo octaédrico onde cada face se impregna de presente e de passado. Esquecestes de fechar tuas entradas e percebo que muitos as seguem. Sigo em frente, enfrentando-me, enfrentando-te, afrontando-me por esses espaços onde encontro ainda a marca dos teus pés, sinais de tuas mãos. Nunca de teu rosto.
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A volta a Cortázar em 40 dias: diário íntimo de Buenos Aires
04-10-2004
Vim em busca de ti, de teus segredos, de teus secretos labirintos. Tenho encontro contigo, marcado, datado, estipulado em um café da esquina, num subte qualquer. Quero tomar posse dessa casa cercada de fogos e túneis. Vim aspirar tua essência de gato, travar contigo um último round, decretar o final do jogo.
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08h05
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